Freud

 

 

Sigmund Freud (1856-1939) costumava dizer que a auto-imagem do Ocidente estava marcada por três grandes golpes na história recente. O primeiro seria a descoberta, por Neuton, de que a terra não era o centro do universo; o segundo, a revelação darwiniana de que a humanidade, longe de ser criada por Dxxs, descendia de uma espécie tão banal quanto os macacos. E o terceiro seria a percepção de que o indivíduo não era dono de si, mas escravo de um inconsciente que não conhecia e do qual não poderia escapar jamais.

Talvez a falta de modéstia fosse justificada. Afinal, poucas pessoas revolucionaram a modernidade tanto quanto o neurologista austríaco. Mas, de certa forma, a grandeza de Freud não reside no fato de ter dito algo de novo mas no fato de ter sistematizado, em um discurso de pretensão científica, um mito – do Grego, muthos, história – recorrente na Europa dos séculos XVIII e XIX.

 

Pois a visão da condição individual e histórica como sendo marcada por uma fundamental oposição entre duas pulsões opostas – a primeira, biológica, tátil e marcada pelo desejo; a segunda, cultural, social e marcada pela razão e pela lei – não era novidade. Pode ser vista em autores de Schiller a Kierkegaard, de Hegel a Nietzsche e passando por William Blake.

 

Seja como for, o fato é que conhecemos – todos – o fundamento do sistema freudiano, no qual aquilo o “eu” reside no meio de duas forças opostas: o id, um fosso primordial de puro desejo, e o super-ego, uma versão interiorizada da lei que nos permite existir em sociedade. Na forma mais primordial, o mito de Édipo se resume a isso: o indivíduo deseja a mãe, mas esbarra sempre no “não” do pai que o impede de possuí-la –em uma castração simbólica que abre o caminho para a sua introdução na cultura.

 

*****

 

Para esta semana, leremos dois textos de Freud: “o estranho” e “sobre o fetichismo”. O primeiro descreve o chamado unheimlich – a estranheza causada pela eclosão, no seio mesmo do familiar (em ambos os sentidos da palavra), de uma não-familiaridade conhecida e antiga. O segundo, que já discutimos, fala de um tipo específico de engano, uma falsa percepção sobre o corpo feminino fundamental para a sobrevivência psíquica do homem. (Desculpem, senhoritas, mas não é por acidente que Freud tem se tornado um alvo freqüente do feminismo: para ele, a matriz psíquica da humanidade é mesmo masculina.)

 

Como mencionei no post de hoje, não teremos aulas na terça, mas seus posts já são bem-vindos.

9 Comentários em “Freud”

  1. Andrea Says:

    Freud, como diz o texto introdutório do professor, consegue realizar uma síntese de idéias e mudanças de concepção que afetaram firmemente seu tempo. Todavia, isso não o impediu de limitar suas conclusões frente à imperativos de sua época – vide o problema do papel da mulher na teoria freudiana. Eu, particularmente, interpreto Freud e suas teorias (e as diversas idas e vindas que ele mesmo articula em seus escritos) como produto do século XIX em transição; como todos os “grandes”, viu além de seu tempo mas ainda estava condicionado por ele. O papel da mulher como elemento estranho e que alimenta o medo da castração, que vemos no texto sobre o fetichismo não deixa de ser, de alguma maneira, pertinente, já que essa diferença marca um elemento de alteridade e de confrontação com o próprio ego. O fato de ser a mulher “a castrada” reflete, a meu ver, uma posição da mulher no século XIX, historicamente construída e delimitada, e que só começa, de fato, a receber atenção no século XX. Sexo ainda era destino. Acredito que podemos interpretar o fetiche em Freud a partir do mesmo princípio que discutimos nas aulas anteriores – uma representação que é validada, de fato, por um elemento que está em outro – mas nesse caso, pelo medo da perda do poder simbolicamente estabelecido pelo falo. Representamos nossos medos, nossa vontade de poder e de afirmação do ego – ou da classe, ou da fé… – por elementos/ações diversas mas sempre ligadas a algo que sempre esteve em nós. Aqui poderíamos sugerir uma ligação com o problema do estranho. Como nos diz Freud no texto, muito mais do que uma repressão, o estranho é fruto da rejeição, considerando que o elemento estranho não é tomado como afeto mas como retomada de algo, digamos, fora do lugar. Relacionando à questão do fetichismo, acho que podemos chegar à arte como forma de representar essa sensação do unheimlich, grosso modo.

  2. Paloma Says:

    > Foi o primeiro texto de Freud que li em minha vida inteira, e fiquei
    > um tanto quanto instigada e decepcionada ao mesmo tempo. No começo
    > achei que Freud se sairia um bom filólogo, no sentido de buscar
    > historicamente as fofocas das palavras num método comparativo entre
    > línguas. Isso é muito interessante, porque alude a outras realidades
    > que as palavras têm nas outras línguas, e como essas palavras
    > perpassam significados além delas.

    > Depois achei Freud um tanto pretencioso em achar que o “O homem da
    > areia” de ETA Hoffman seria uma luva na questão lá da castraçaõ. Ele simplesmente nega qualquer existência de análise literária formal, em que os
    > elementos narrativos se relacionam para gerar um conjunto literário maior,
    > constituindo a própria narrativa. Me decepcionou um pouco, porque
    > justamente ao que ele se remete no texto de Hoffmam, a questão do fantasmagórico/estranho é todo um
    > contexto social e histórico vivido por homens históricos num estado de
    > desencantamento do mundo, que no caso da literatura uma das formas de expressar isso foi por meio do fantástico, que outros escritores, a exemplo de Hoffmam,
    > também o fizeram como Murilo Rubião, um autor brasileiro que foi descartado em sua época.
    >
    > E por último, toda aquela história do medo de perder o olho é muito
    > machista, porque remete à castração, e a mulher entra na história quando é pro homem descobrir que tem medo de ser castrado, isso é o homem ser muito cêntrico. Isso é estranho, apesar de fazer parte da realidade em que vivemos, excludente, machista e mais alguns -istas. Além disso, existe uma idolatria desse órgão, uma hegemonia mesmo, sendo as outras partes do corpo, os outros órgãos e sentidos discriminados e deixados de lado, como se seus papéis na atividade humana fossem secundários.
    só pra brincar um pouco com essa questão do olho

    http://www.feedthehead.net/

    um site ai brinquei por acaso!

  3. LUÍSA MOSER Says:

    Para Freud, o estranho “não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo de repressão.” (pp. 301). Seria tudo o que deveria ter permanecido secreto mas veio à luz. Lendo estes trechos e tendo em mente os seus estudos sobre o inconsciente torna-se inevitável não lembrar de Foucault, que caracteriza a era Moderna pela busca do invisível no visível, pela investigação do que está oculto, da busca pelo inaudito. E a psicanálise se encaixa justamente nisso, nessa busca para o que está além do nível da consciência, além daquilo que está “visível” ou então (facilmente) acessível.
    Acho que é bastante pertinente o comentário da Andréia em relação à construção da mulher no discurso Freudiano. A sua perspectiva do feminino foi construída a partir do modelo masculino e não a partir do próprio corpo feminino. Dessa forma, a mulher é entendida como um corpo masculino incompleto e assim imperfeito. É importante que se atente para estruturas de poder que estão por trás desse discurso acerca do feminino. Discurso esse, como disse a Andréia, em consonância com o seu tempo (pois se, como discutido aula passada, nas artes pode-se questionar se estas são ou não intimamente ligadas ao seu tempo, na produção intelectual acredito que essa questão já esteja encerrada), todavia, não pode passar por nós despercebido e sem ser problematizado. Ainda nessa lógica da mulher como o ser castrado, é interessante observar como ele entende o fetichismo como um meio para preservar o primeiro falo castrado, que seria o da mãe, e assim também como um emblema do triunfo contra a ameaça da castração.
    Nessa lógica da familiaridade, como então pensar o novo, se parece que a psicanálise praticamente exclue o “inédito” da experiência humana (tirando a primeira infância)? Não sei se estaria sendo muito radical ou irresponsável ao dizer isso…

  4. Júnia Says:

    Freud era “o cara”- aprovo toda e qualquer falta de modéstia dele! Apesar de ter lido poucos textos dele ainda me sinto motivada a estudá-lo com mais afinco… ok, vamos falar do texto.
    Das Unheimliche- Li esse texto em voz alta pra minha amiga da matemática (ela adora Freud também). Nós rimos bastante, porque a cada parágrafo falávamos: “hum, que estranho!”. No entanto, temos discordância de algumas coisas que o autor cita no texto como: “…nós, com a superioridade das mentes racionais, estamos aptos a detectar a sensata verdade” (pg. 289, parágrafo 1) de forma um tanto característica da classe médica (com todo o juízo de valor intrínseco à minha pessoa), ele meio que se avalisa a julgar qualquer espécie de construção de conhecimento, ou de qualquer outro tipo de assunto, inclusive da literatura. No entanto sua contribuição é indiscutível em relação ao conhecimento e ao estudo da psique humana, apesar de haver erros em sua teoria.
    Bom, supondo que a disciplina se interessa mais pelo aspecto do estudo da arte e suas interpretações, pode-se ressaltar então a importância da ficção em relação à vida real, já que a ficção expressa aquilo que não pode ser encontrado na vida real,pois o reino da fantasia não se submete ao teste da realidade. De forma que os autores têm então ferramentas poderosas para surtirem efeitos estranhos, manipulando a condições de estranheza da vida real.

    Fetichismo foi estranho… dá pra saber agora porque os homens “viram” homossexuais ou fetichistas, mas o que acontece com as mulheres? Existem mulheres fetichistas? Qual a parte do homem que foi amputada na imaginação das meninas? Será que foi o cérebro? Hum…

  5. aminata Says:

    Sigmund Freud apresenta o fetichismo como uma perversão. Ele propõe uma explicação quanto à origem do fetichismo sexual, que seria ligado a um traumatismo durante a infância simbolizado pela angústia da castração. De acordo com a sua teoria, um rapaz, descobrindo pela primeira vez que uma pessoa do sexo feminino (por exemplo, a sua mãe) não possui pênis, faz uma transferência sobre um objeto inanimado que ele verá no mesmo momento. O fetiche constitui assim um substituto do “falo” p242 que falta a mulher. Este objeto lhe será então necessário no futuro para ter uma satisfação sexual. Esta teoria é bastante interessante, mas agora afirmar que o medo de castração pode ser um elemento que explica a orientação sexual de uma pessoa como a homossexualidade ainda é um fato que falta provar.

  6. Rosana Lia Says:

    Ao ler Freud sempre gostei de exercitei a idéia de que ele seria o primeiro a se preocupar com alguns temas, talvez na falta de estudos sobre esses, ou que ele é o primeiro a tentar ser compreendido com relação aos assuntos que escreve, apesar de não saber se são verdades.

    Em “O estranho” Freud descreve o caminho que irá usar para compreender essa palavra, ele infere a natureza do estranho através da reunião tanto do seu uso lingüístico no decorrer da história, quanto de diversas situações que despertam o sentimento de estranheza, em busca de regularidades, e já adianta que “o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar” (p.277) É possível apontar a contradição em dado trecho, afinal, como aquilo que é familiar pode ser assustador? Contudo, esse é um questionamento bastante simples considerando a multiplicidade de apontamentos para o estranho que é familiar: “ter os olhos roubados” (um medo da primitiva infância), “ser enterrado vivo” (fantasias de estar no útero), “compulsão a repetição” (impulsos instintuais)… Ele afirma que “uma experiência estranha ocorre quando os complexos infantis que haviam sido reprimidos revivem uma vez mais por meio de alguma impressão, ou quando as crenças primitivas que foram superadas parecem outra vez confirmar-se.” (p.310)

    A caracterização do fetichismo, esse estranhamento, é explicado por um processo primário, o medo da castração. Não fugindo da idéia apresentada acima.

  7. Rosana Lia Says:

    *Ao ler Freud sempre gostei de exercitar a idéia de que ele seria o primeiro a se preocupar com alguns temas, talvez na falta de estudos sobre esses, ou que ele é o primeiro a tentar ser compreendido com relação aos assuntos que escreve, apesar de eu não saber se são verdades.

    (*reescrito para talvez ser melhor compreendido)

  8. carlos mascarenhas Says:

    No texto o trabalho dedicado ao fetichismo de Freud propõe que a chave desta forma de perversidade se encontra justamente em uma duplicidade de atitudes diante da abstenção da figura materna: reconhecimento e repúdio ao mesmo tempo.Isso se resumiria em um processo de auto defesa.

  9. Andrea Says:

    Achei um trecho de um texto do Freud que fala diretamente sobre a arte e esclarece um pouco aquela relação entre o individuo e a sociedade da qual o professor falou. O texto é O futuro de uma ilusão: “Um tipo diferente de satisfação é concedido aos participantes de uma unidade cultural pela arte, embora, via de regra, ela permaneça inacessível às massas, que se acham empenhadas num trabalho exaustivo, além de não terem desfrutado de qualquer educação pessoal. Como já descobrimos há muito tempo, a arte oferece satisfações substitutivas para as mais antigas e mais profundamente sentidas renúncias culturais, e, por esse motivo, ela serve, como nenhuma outra coisa, para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da civilização. Por outro lado, as criações da arte elevam seus sentimentos de identificação, de que toda unidade cultural carece tanto, proporcionando uma ocasião para a partilha de experiências emocionais altamente valorizadas. E quando essas criações retratam as realizações de sua cultura específica e lhe trazem à mente os ideiais dela de maneira impressiva, contribuem também para sua satisfação narcísica” p.23


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